Como Pelé, a Seleção de 70 e outros jogadores me ajudaram a viajar
Popularidade do futebol brasileiro mundo afora também colaborou para formar o estereótipo de povo alegre do Brasil
Estereótipos podem ser bons ou ruins. O Brasil tem alguns e o de povo simpático, alegre, talvez seja o melhor deles. Seja na Argentina ou na Mongólia, sempre ganhei sorrisos quando disse de onde vinha. E me dei conta com o passar dos anos que isso tem muito a ver com o futebol, com os ídolos nascidos na nossa terra. Sei que há muitos estudos sobre o tema, mas o que venho compartilhar aqui é a minha experiência. Nenhuma pretensão científica envolvida. Dito isto, vamos ao que interessa antes que o mundo mude de opinião sobre a gente.
Essa semana vimos o gênio Diego Armando Maradona partir de volta para o planeta de onde veio. A Terra parou para reverenciar o eterno camisa 10, campeão da Copa de 1986. O mundo olhou para a Argentina enlutada. Pois Maradona é Argentina e Argentina é Maradona. Então, meus amigos, eu só queria avisar que embora Pelé, no Brasil, não tenha o mesmo reconhecimento e idolatria que Maradona tem no seu país, há de se dizer. Pelé é Brasil e Brasil é Pelé. Assim o mundo nos vê, também com o número 10 nas costas.
O Rei do Futebol tem 80 anos e espero que tenha saúde para viver muitos anos mais. Sou grato a ele e a todos os craques brasileiros que fizeram tão bem a imagem do Brasil. Não só nos deram alegrias, ganhando cinco Copas para a Seleção com mais títulos mundiais até hoje, nos deram o estereótipo do jogo bonito, bonito como nosso país. O país do samba, do carnaval e do futebol. Futebol, simplesmente o esporte mais popular do globo.
Sei muito bem que existem muitos Brasis e que o estereótipo é pra lá de reducionista dentro da dimensão do sexto país mais populoso do planeta, mas não dá para reclamar de ser bem visto. A simpatia dos atletas, aparentemente sempre sorridentes, e a arte do jogo levaram o mundo a pensar que somos felizes. E felicidade atrai.
Seleção Brasileira
A primeira vez que me dei conta do tamanho da Seleção Brasileira viajando foi em 2014. No mesmo ano do trágico 7x1, viajei para o México, onde passei 10 dias no mês de novembro daquele ano. Eu não falava espanhol e, pela primeira vez na vida, arranhava algo de portunhol. Os mexicanos me receberam bem. Percebiam de onde eu vinha somente ao falar. Talvez pareça pouco, mas hoje sei como isso facilitou a minha vida. Sempre havia um início de conversa engatilhado com qualquer estranho.
O impacto da Seleção campeã do mundo em 1970 lá no México, com Pelé e companhia, vivia presente 44 anos depois. Ouvia sobre o melhor atleta do século XX onde quer que eu parasse para comer uns tacos ou quesadillas. A história mais legal foi de quando precisei pegar um táxi à noite para voltar de uma festa para meu hostel. O taxista amava o Brasil sem sequer ter pisado no nosso país. Tudo tinha a ver com o amor dele pelo futebol e pelos talentos que vestiam a amarelinha. O papo foi tão bacana que fui convidado para almoçar com ele e sua família no dia seguinte.
No México, já em 2016 e fluente em espanhol, tive experiências semelhantes. Passei um mês em Guadalajara, onde o Brasil basicamente se instalou na Copa de 1970, e lá a recepção foi tão boa quanto em 2014. Sou jornalista e por sete anos trabalhei com a cobertura de futebol na Bahia. Comigo o papo sobre bola sempre rendeu, mesmo quando o idioma local não era meu forte.
A pequena história que mais me marcou aconteceu na Mongólia, também em 2016. Na capital Ulan Bator, é possível se virar com inglês, mas nas demais cidades pelo interior do país o jeito é usar mímica. Porém, uma ou outra frase em inglês funciona. “Where are you from?” (em português: “De onde você é?”), era o início e o fim de muitas das ‘conversas’.
Certa feita, no vilarejo de Tariat, na região centro norte do país, um senhor me perguntou de onde eu vinha e, em uma mistura de portuglês, respondi: “Braszil”. Ele abriu o sorriso e começou a listar nomes de jogadores. “Pelé, Ronaldinho, Roberto Carlos”, dizia, enquanto chutava o ar simulando um toque em uma bola de futebol.
Ser brasileiro
Enfim, ter nascido no Brasil me ajudou a entrar em muitas conversas, em muitos lugares, em muitas casas. Tenho mais histórias e incontáveis vezes escutei o nome de Pelé. Vejam vocês, alguém que não joga futebol profissionalmente desde os anos 70, mas que ecoa por aí quando alguém lança o nome do Brasil no ar. Outros carregaram seu legado, como Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, e corriqueiramente são lembrandos por estrangeiros.
Os jogadores brasileiros atualmente estão presentes em muitas ligas e até os mais contestados são vistos com bons olhos a depender de onde jogam. Me lembro de quando um rapaz de Hong Kong, torcedor do chinês Guangzhou Evergrande, me disse que era fã de Paulinho, ex-Corinthians que vestiu a amarelinha na Copa de 2018. Soube que eu era brasileiro e começou a falar de Paulinho como se ele fosse um Paulo Roberto Falcão, ídolo do Inter e da Roma.
Hoje em dia, Neymar é o grande nome do futebol brasileiro. Muita gente viu o mundo cair em cima do jogador na Copa de 2018, o criticando, o chamando de cai-cai e outras coisas mais pesadas. Pode ter afetado em algo a imagem do nosso futebol, mas longe de ser algo a se preocupar. Neymar é visto como um dos poucos atletas que joga o tal do futebol arte em alto nível. Ídolo que ultrapassa as fronteiras do país onde nasceu. Enquanto o Brasil tiver alguém que jogue o tal do jogo bonito, a contribuição futebolística para a marca da simpatia segue preservada.
Senna
Para fechar, gostaria de falar sobre outro esportista brasileiro. Ayrton Senna, tricampeão do mundo de Fórmula 1, sempre me é lembrado pela semelhança do meu nome com o dele para quem não fala português. Me chamo Hailton. E muitas vezes quando me apresento me perguntam: “Como Senna?”.
Uma vez no Uruguai, chegando no interior do departamento de Colonia de Sacramento, buscava a casa no campo que me hospedaria graças ao Couchsurfing. Caminhava com meu mochilão entre pequenas fazendas quando parou um carro. Marcelo me ofereceu carona até a casa da família Pessio. Logo após me apresentar, me contou que tinha um grande pôster de Senna estampado na sua casa. Era um dos seus ídolos.